Kojji



O TOQUE TERAPÊUTICO


 

 

O toque como Trabalho Corporal deve basear-se num contato em que há uma consciência do toque como manifestação afetiva, entendendo o valor terapêutico desta. Em Psicoterapia Corporal, o Trabalho Corporal tem o objetivo de trabalhar os aspectos emocionais, através da dissolução da rigidez muscular.
Wilhelm Reich, médico contemporâneo de Freud, desenvolveu a Vegetoterapia ao fazer importantes descobertas sobre a natureza do ser humano diz:
A nossa finalidade é liberar os afetos que, em dado momento, estiveram sujeitos a severa inibição e fixação. Isso se consegue soltando as incrustações do caráter. Toda dissolução bem sucedida de uma incrustação de caráter libera primeiro emoções de cólera ou de angústia. Tratando essas emoções liberadas como mecanismos psíquicos de defesa, conseguimos enfim restaurar no paciente a sua motilidade sexual e sensibilidade biológica. [...] a dissolução de um espasmo muscular não só libera a energia vegetativa mas, além disso e principalmente, reproduz a lembrança da situação de infância na qual ocorreu a repressão do instinto. Pode-se dizer que toda rigidez muscular contém a história e o significado da sua origem.(REICH, 1987, p. 254).
 
Referindo-se à importância das emoções na gênese das doenças, o Psicanalista J. Lacan afirma que:
Devemos um lugar importante ao papel patogênico atribuído àemoção. As perturbações orgânicas concomitantes da emoção foram objeto de numerosos trabalhos; ao lado dos distúrbios vasculares, o laboratório revelou perturbações humorais: choque hemoclásico, variações da química sanguínea. A clínica traz fatos certos de desencadeamentos das psicoses pela emoção. (LACAN, 1987).
 
Algumas pessoas desenvolveram uma rejeição ao toque, devido aos registros traumáticos pretéritos. Embora eles afirmem que não gostam de ser tocados ou massageados, é precisamente a terapia do toque que irá curá-las. Nestes casos, deve-se proceder com a conscientização deste fato e principiar um trabalho gradual de exposição ao contato, solicitando que busque respirar profundo, relaxar e entregar-se ao toque.
Em geral é necessário esclarecer o cliente sobre essas questões de toque e contato. Como a massoterapia envolve a necessidade de um contato tão íntimo, deve ser bem explicado a situação terapêutica, seus pressupostos e propósitos.
Em geral, as neuroses estão vinculadas à sexualidade e afetividade, por isso, os medos das pessoas, em seu nível mais profundo, estão relacionados com suas fantasias temerosas de algum envolvimento afetivo ou sexual, ainda que indiretamente.
De acordo com Field (2003, p.60), “pelo menos 30 porcento de garotas e 10 porcento de garotos são molestados sexualmente antes deles terem dezoito anos de idade”. Isto indica que uma boa porção da população adulta possui estigmas de toque e repassam direta ou indiretamente aos filhos os reflexos de seus traumas sexuais.  Muitas vítimas tendem a sentirem medo e culpa, o que desencadeia inibições ou aversão sexual, e conseqüentemente a qualquer contato que recorde a situação traumática.
Diante desse alto índice de pessoas prejudicadas em seu desenvolvimento psico-sexual, alastra-se um estigma ao toque. “Parentes e professores têm tido receio de tocar crianças porque sua afeição física pode ser mal interpretada, então as crianças são privadas de toque desde muito cedo” (FIELD, 2003).
Field (Op. Cit.) relata um interessante estudo realizado no Swarthmore College, com sala escura (dark room) e sala iluminada.  Na primeira, 90 porcento dos estudantes se tocaram  um ao outro, quase 50 porcento deles se abraçaram; na sala iluminada, quase nenhum deles se abraçaram ou se tocaram, ficaram muito tímidos para se tocarem no claro. Em outro estudo de confinamento por uma semana na sala escura, eles aumentaram consideravelmente sua sensibilidade ao toque, tanto como para a dor.
Por outro lado, há pessoas cujas carências afloram durante o trabalho corporal, necessitando uma postura ética e profissional com o devido esclarecimento da situação.
Uma vez que o toque em si pode despertar sensações eróticas, o recipiente pode envergonhar-se e contrair-se, ou excitar-se e depois se sentir culpado. Assim, é necessária uma atitude o mais natural possível do terapeuta em relação à sexualidade e afetividade, para não causar qualquer constrangimento.
Uma explicação prévia torna-se necessária, para que o recipiente não reprima suas manifestações naturais, do contrário, a terapia estará tendo um efeito inverso. As tensões musculares, em sua maioria, são resultados de repressões da energia vital, que é essencialmente sexual. O objetivo é desrreprimir o reprimido e não aumentar a repressão.
Groddeck (1997), Médico Psicanalista, considerado o Pai da Psicossomática refere-se a etiologia das doenças relacionadas às repressões do Inconsciente:
O desejo recalcado se manifesta na doença; a doença em todas suas formas, quer sejam funcionais ou orgânicas, quer seu nome seja broncopneumonia ou melancolia.(p.91).
Quanto mais profundo for o conflito íntimo do ser humano, mais graves serão as doenças, pois elas  representam simbolicamente o conflito. [...] A doença tem uma razão de ser: ela deve resolver o conflito, recalcá-lo e impedir o que foi recalcado de chegar ao consciente. [...] Quando quebramos um braço é porque pecamos ou queríamos pecar com o braço: assassinar, matar, masturbar-se. Quando alguém fica cego, é porque não queria mais ver, porque pecou com os olhos ou tinha a intenção de fazê-lo; quando alguém fica sem fala é porque tinha um segredo e não ousava contá-lo bem alto.(p.95). As dores lombares no momento das regras facilitam a resistência da mulher contra seus desejos (p.94).
Meu tratamento consiste em tentar tornar conscientes os complexos inconscientes do Eu. (p.228). (GRODDECK,).
É necessário esclarecer que a massoterapia não substitui o tratamento psicoterápico, embora possa auxiliar na liberação de algumas repressões. Nos casos de recalques severos, deve-se encorajar o cliente para que procure fazer psicoterapia, esclarecendo-lhe que é útil e benéfico e removendo possíveis preconceitos.
 
 
 O Toque Cordial
 
O Toque Cordial é um toque integral, de corpo e alma. Em geral quando as pessoas se tocam, elas não o fazem com uma consciência profunda e cordial. Elas dão um “aperto de mão” ou um abraço de forma mecânica, apenas um gesto social. O toque cordial é feito com o coração, com amor e carinho.
Trata-se de um contato mais que físico e mecânico. É um contato de alma e coração, com respeito e permissividade. É uma entrega de si ao outro num contato muito íntimo.
Lamentavelmente as pessoas constroem mais muros do que pontes. Vivemos numa sociedade severamente reprimida e distante, onde impera o individualismo e o egoísmo. As pessoas não se permitem abraçar de verdade. Quando alguém faz isso de verdade algumas pessoas se espantam, ficam com medo de que esteja acontecendo algo “errado”. Consideram o contato íntimo com malícia. Como Jesus disse: “para o puro, tudo é puro; mas para o impuro tudo é impuro.”
É necessário ter coragem de enfrentar a hipocrisia instituída e vencer os obstáculos dos preconceitos para criar uma nova sociedade mais fraterna, acolhedora e cordial. Onde as pessoas se toquem com carinho e respeito, sem malícias e falso pudor.