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VIRTUDES TEOLOGAIS


 

A Caridade (Amor) como virtude teologal na perspectiva de incidência para uma sociedade mais justa e mais fraterna.



Introdução

A virtude (do latim, virtus, que significa força) designa sempre uma capacidade de realizar ou fazer acontecer algo. Ela pode ser intrínseca, no sentido de um atributo ou propriedade inerente ao objeto. Uma potência própria do homem, uma habilidade que o torna virtuoso por designação, geralmente indicado pelo verbo ser. E, ainda, o sentido de virtude designa uma capacidade ( uniforme e continuativa) do homem no domínio moral.

Esta capacidade do homem no domínio moral pode ser natural ou adquirida. É natutral enquanto capacidade de atender uma tarefa determinada que lhe é inerente, no sentido intrínseco de objeto e função, p. e., fogo e aquecimento, a produção de calor é uma propriedade natural do fogo, desta forma, aquecer torna-se uma função natural. É adquirida quando se faz por meio de uma disposição racional constante, um hábito. Dizia Aristóteles que “é o hábito que torna o homem bom e lhe permite cumprir bem sua tarefa.”

Pode ser uma questão de sentimento ou volição. No primeiro caso, defendido pelos filósofos do século XVIII, algo não faz nem bem nem mal, depende da relação com qual a emoção ou afeição a move. No segundo, defendido por Kant e Rosseau, a virtude vem do esforço pessoal, da vontade do homem que se empenha em algo.

À partir do entendimento do que é virtude no ser humano, pode-se concluir o que são virtudes teologais: é o esforço e o empenho de manifestar a capacidade intrínseca do ser humano relacionada aos atributos divinos, dentro de uma compreensão racional destes. Elas “põem-nos em comunhão com Deus e conduzem-nos a Ele” (JOÃO PAULO II, 2000).

As virtudes teologais são três: fé, esperança e caridade (amor). Falando sobre elas, João Paulo II (Op. Cit.) diz: “são como três estrelas que se acendem no céu da nossa vida espiritual para nos guiarem rumo a Deus”.
Todas são importantes e estão inter-relacionadas. Da fé vem a esperança e a caridade[1], ao mesmo tempo em que, o amor é a mais importante.[2] Mas sem a esperança não ocorre a movimentação necessária para se atingir as outras duas, donde é possível afirmar que a esperança pode ser a mãe da fé e da caridade.

Embora as três sejam de importância fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, neste trabalho privilegiar-se-á a caridade ou amor como a de maior incidência.


 
CAPÍTULO 1
A DEFINIÇÃO DE AMOR


Assim como no uso cotidiano, a palavra amor apresenta vários significados na Bíblia. Encontrar o verdadeiro sentido de amor conduzirá a resultados diferentes na prática da verdadeira cristandade, bem como nos inter-relacionamentos.
No A. T. os sentidos atribuídos ao amor nas diversas passagens variam de acordo com o contexto. Em geral, indicam uma afeição ou apego voluntário a pessoas ou objetos. Como em Gn 25:28, em que Isaque ama Esaú, ao passo que Rebeca ama Jacó, no sentido de preferência. Em Sl 100:5 “ o Senhor é bom, e o seu amor dura para sempre”, apresenta um amor divino. Por outro lado, em I Rs 11:1, o amor sensual de Salomão às suas mulheres.
No N.T. encontram-se os termos gregos philia e agape e seus cognatos para designar o amor. Philien e philia são usados no sentido de amor relacionado a amizade, ao bom relacionamento. Agape e agapan são usados para designar um amor mais profundo, caridade (em vernáculo), o amor cristão, cuja concepção transcende o ideário popular da época, de um amor que vai além da amizade, que se estende inclusive aos inimigos.
Agape e agapan se referem ao amor de Deus e de Cristo ao homem, bem como, ao amor do homem a Deus e a Cristo, e ainda ao amor mútuo entre os homens. Neste sentido, Gregório (2006) enfatiza a importância do amor: “Dentre as virtudes teologais, a fé ocupa lugar de destaque, pois dá embasamento à esperança e à caridade. A caridade, por sua vez, é a mais perfeita, porque pode ser praticada, indistintamente, por todas as classes sociais.”
Comte-Sponville( 1999), traz uma descrição de ágape como um amor divino, no sentido em que é um amor que cria, sem estar apegado à um objeto ou intenção(como em eros e philia):
“A agapé é um amor criador. O amor divino não se dirige ao que já é em si digno de amor; ao contrário, ele toma como objeto o que não tem nenhum valor em si e lhe dá um valor. A agapé nada tem em comum com o amor que se funda na constatação do valor do objeto a que se dirige [como faz erôs, mas como também faz philia, quase sempre]. A agapé não constata valores, cria-os. Ele ama e, com isso, confere valor. O homem amado por Deus não tem nenhum valor em si; o que lhe dá um valor é o fato de Deus amá-lo. A agapé é um princípio criador de valor.”
Em “quarto de badulaques (XXI)”, Rubem Alves (2006), apresenta o seu conceito sobre o amor relacionado à estética: 
“O amor nunca é simplesmente amor; é sempre amor a alguma coisa. Segundo os poemas sagrados Deus criou o universo para plantar nele um jardim. Por que um jardim? Porque um jardim é belo. Deus não ama a feiura. Deus não ama o sofrimento. O que Deus deseja é, precisamente, transformar a feiura em beleza, transformar o sofrimento em alegria. Há uma diferença crucial entre a maneira clássica dos gregos de compreender o amor e a maneira bíblica de compreender o amor. Eros, o amor sobre que Sócrates falava, era amor pelo Belo, simplesmente. Para ele era impossível amar o feio. O Novo Testamento, entretanto, não usa a palavra eros para se referir ao amor. Usa a palavra agape (pronuncia-se agápe, paroxítona). Agape é amor por algo que é feio, algo sem valor.”


Tanto na descrição de Comte-Sponville, quanto em Alves, o amor ágape se reveste de um sentido transcendental, que vai alem do ego, além do limitado. Justamente por isso que ele é o único capaz de tornar divino, pois é o próprio Deus e sua expressão.

Nos seguintes trechos bíblicos é possível entender a extensão do significado do amor na perspectiva teológica cristã:
Ø O amor dedicado aos inimigos: Mt 5: 45-48 e Lc 6:27s 32-36.
Ø O amor do perdão: Lc 7: 36-50.
Ø O amor preferencial: Mt 6:24 e Lc 16:13.
Ø O amor de Jesus e do Pai: Mt 3: 17; 12: 18: 17: 5, Mc 1: 11; 9: 7; 12: 6 e Lc 3: 22; 9: 35; 20: 13.
Ø O amor de Jesus aos homens: Mc 10: 21.
Ø O amor de Deus derramado pelo Espírito Santo: Rm 5: 5.
Ø O amor de Cristo à sua Igreja como modelo de amor para o esposo: Ef 5:25-33.
Ø O amor que impele às tarefas apostólicas: 2 Co 5: 14.
Ø O amor ao próximo como cumprimento de toda a lei: Rm 13: 8-10.
Ø O amor procede de modo conveniente e adequado para não ferir o irmão com escândalo: Rm 14: 15.
Ø O amor que recebe o pecador arrependido: 2 Co 2:8.
Ø Deus é amor, sem ele não se pode conhecer a Deus: I Jô 4: 8-16.
Ø Amor caridoso: I Jô 3: 17.
Ø Amor fraterno: Jô 13: 24s 15-17.

O amor nesta perspectiva tem uma extensão e profundidade além do comum, vulgar ou profano amor das pessoas no cotidiano. O amor cristão reflete o próprio amor de Deus, que não exclui à ninguém. É um amor racional, distante do inconveniente e do inadequado. É um amor que impele à fraternidade e ao apostolado.

Conforme Bertelli (2005, p. 151), Thomas Merton, um dos maiores mestres contemporâneos em teologia espiritual, “entendia o amor como a dinâmica tendendo à unidade, buscado como um bem em si mesmo. Todas as criaturas amam a Deus a seu modo, sendo o que são: estrelas, pedras, flores ou pássaros. Mas é sobretudo o ser humano que está vocacionado a amar, pois foi feito para o amor.”

A teologia do amor pode ser desdobrada em três conceitos: amor, dilectio, charitas.” Amor é paixão e desejo (“affectus amoris”). É o desejo apaixonado por Deus. Para a alma Deus é amor, o Esposo vindo a nós. Dilectio é comunhão de vida, a harmonia da vida fraterna. Charitas é fruitio, a plenitude do amor contemplativo.” (BERTELLI, 2005, p. 151).






CAPÍTULO 2
A IMPORTÂNCIA DO AMOR



O Papa João Paulo II fala da importância do amor em sua audiência de 22 de novembro de 2000:
“No vértice das três virtudes teologais está o amor, que Paulo compara como que a um anel de ouro que reúne em harmonia perfeita toda a comunidade cristã: "E acima de tudo, revesti-vos com o amor, que é o laço da perfeição" (Col 3, 14). Cristo, na solene oração pela unidade dos discípulos, revela o seu profundo substracto teológico: "O amor com que (ó Pai) Me amaste, esteja neles e Eu mesmo esteja neles" (Jo 17, 26). Precisamente este amor, acolhido e feito crescer, compõe num único corpo a Igreja, como ainda nos indica Paulo: "Vivendo um amor autêntico, cresceremos sob todos os aspectos em direcção a Cristo, que é a Cabeça. Ele organiza e dá coesão ao corpo inteiro, através de uma rede de articulações, que são os membros, cada um com a sua actividade própria, para que o corpo cresça e se construa a si próprio no amor" (Ef 4, 15-16).”

Conforme Comte-Sponville (1999): “Quando o amor existe, em compensação, as outras virtudes seguem-se espontaneamente, como se fossem naturais, a ponto de se anularem como virtudes específicas ou especificamente morais.” Dessa forma, o amor demonstra-se de fundamental importância, pois, por si mesmo conduz a manifestação natural das outras virtudes.

Comte-Sponville exemplifica o poder do amor através do amor materno, que é forte o suficiente para a manifestação de várias outras virtudes:
“Que as mães, em relação a seus filhos, possuem a maioria das virtudes que geralmente nos faltam (e que lhes faltam), ou antes, que o amor nelas toma o lugar das virtudes, quase sempre, e as liberta – pois essas virtudes só são moralmente necessárias, quase todas, por falta de amor. O que há de mais fiel, de mais prudente, de mais corajoso, de mais misericordioso, de mais doce, de mais sincero, de mais simples, de mais puro, de mais compassivo, de mais justo (sim, mais que a própria justiça!) do que esse amor? Não é sempre assim?”

Assim como no amor materno que traz consigo o máximo de fidelidade, prudência, coragem, misericórdia, doçura, sinceridade, simplicidade, pureza, compaixão e justiça, deve ser o amor ao próximo. Esse cuidado, esse zelo, essa absorção num amor maior que transcende o si mesmo, deve ser o amor verdadeiro. Apenas este amor é capaz de transcender as limitações humanas que conduz ao poder ilimitado do divino. Assim é que se manifesta o divino no humano, através do amor cristão.

Diz Bertelli ( Op. Cit.): “O sentido da ascese é fazer com que o amor nos leve a beber na fonte plena que é o próprio Deus (“fontalis plenitudo”). “ Dessa forma, é o amor a principal virtude que conduz o cristão em sua ascese espiritual, que o coloca em contato com a plenitude divina, capaz de transformar a vida, pois inunda-o de compaixão crística.

De acordo com Bertelli (Op. Cit.), “os evangelhos apresentam Jesus como a compaixão de Deus”, sendo Jesus o critério para discernir a mística cristã, a revelação definitiva de Deus. E conclui que: “Deus chama o ser humano para a liberdade de construir um mundo de amor... Se respondermos... experimentamo-nos chamados a participar na libertação revolucionária do mundo pela cruz”.

Jesus é o modelo de compaixão divina, de amor para com o próximo. Este amor conduz o cristão ao encontro de Deus no mistério de Jesus, que é alcançar a plena libertação dos egoísmos que fazem parte da natureza humana, para servir aos outros com compaixão. E essa própria compaixão revelada ao próximo, é a expressão da compaixão de Jesus para com o cristão. “A mesma compaixão de Deus em Cristo nos deve mover a perdoar e transformar o mundo em Deus. Mística leva à compaixão. Eis a vocação cristã!” (BERTELLI, 2005, p.164)

Ainda Bertelli (Op. Cit.), afirma que: “a compaixão implica em cuidado responsável pelo outro, em seu abandono, pobreza e exclusão. Assim a compaixão corrige e equilibra a mística. .../... A espiritualidade e a mística supõem o ascensus hominis e o descensus Dei na mística, e portanto, inspira o descensus hominis na compaixão.” Assim sendo, é possível formular Nulla mystica sine compassione.

De nada adianta assistir missas, rezar terços, fazer penitências e renúncias, ou mesmo falar a língua dos anjos, sem praticar a caridade. É na vida cotidiana, na acolhida ao próximo, que se manifesta a verdadeira cristandade. É assim que se cumpre o mandamento máximo de Jesus que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.
No site católico veritatis (2006), um artigo sobre o “amor a Deus, a si mesmo e aos outros”, de autoria desconhecida, diz: “Nesta vida, seu amor a Deus está ligado a seu amor aos outros - e esses amores estão também ligados com seu amor para consigo mesmo.” E acrescenta que: “o cumprimento do preceito divino de amar começa com um autêntico amor a si mesmo. A fim de amar a Deus como Ele quer, você precisa respeitar, estimar e reverenciar a si mesmo.”
O amar a si mesmo surge da percepção de que Deus realmente o ama, a partir das experiências que comprovam o amor de Deus, que Deus o ama com um amor infinito. Neste sentido, em que há esta percepção do amor pleno de Deus em sua vida (que Deus o ama e você é digno deste amor), o indivíduo está, também, colaborando com a gratuidade de Deus.
As experiências que comprovam o amor de Deus estão justamente na vida prática, no dia-a-dia, nas relações com o outro. Ouvindo e acolhendo o outro, amando e sendo amado, o que inclui aceitação, caridade e perdão. É amando e sendo amado que se manifesta o amor de Deus em nossa vida. É assim que percebemos o amor de Deus, quando somos esse amor. É amando que se aprende o que é o amor; é amando que se chega a conhecer a Deus(1Jo 4, 7-8).
À partir desta constatação que redimensiona o amor a si mesmo, estende-se esse amor ao próximo. E cada um que experimenta esse amor, se reaviva no amor e transmite ao outro, dessa forma, gerando uma corrente de eventos substanciados pelo amor. O que irá repercutir na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

O amor, por si mesmo, em sua manifestação extermina todas as suas antíteses. Elimina o ódio, e não apenas o elimina, mas traz afetuosidade, compaixão, união e fraternidade. Traz inclusão, harmonia e justiça. Amar é querer bem ao objeto amado, dessa forma, querendo o bem do próximo, age com doçura, sinceridade e zelo.

A fé e a esperança sempre se depositam em algo ou em alguém. Na perspectiva de virtudes teologais, a fé e a esperança estão alicerçadas em algo de alguém, assim, para tê-las é preciso antes amar esse alguém. Somente com o amor desenvolvem-se a fé e a esperança, que se manifestam em ações congruentes à totalidade desta triunidade de virtudes.

Justifica-se, assim a importância do amor soberano à Deus, que se estende à Sua Palavra, à Fé, à Esperança e ao próximo. Buscando o amor, todas as demais virtudes se manifestam. Dessa forma, o amor irá trazer melhoras nas obras consecutivas de uma fé autêntica, nos relacionamentos entre as pessoas, no comportamento para com o próximo. E, assim, uma sociedade mais justa e mais fraterna.
 
CONCLUSÃO

Conclui-se que o amor é a mais importante das três virtudes teologais para a construção de um mundo melhor, pois se encontra na essência da própria divindade. É através do amor que se chega a conhecer a Deus, pois Ele é Amor. Conhecendo-o adquire-se uma fé e esperança inviolável, sustentada não só pela cognição, mas, antes, pelo próprio amor.

É na vida prática do cotidiano, no contato com o outro que experimentamos e manifestamos o amor. Isto naturalmente produzirá uma cadeia de eventos que se repercutirá na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Mas é preciso um ato voluntário, uma tomada de decisão de buscar este amor, que inicia-se, por um lado, na observação e constatação da manifestação de Deus em nossas vidas; e por outro, no despertar de um desejo sincero de amar.

Na medida em que nos dispomos a encontrar o amor e a amar, desde o início começamos a agir com mais afetuosidade e zelo para com o próximo, começamos a construir relacionamentos mais fraternos e justos. Como esta prática se retro-alimenta, vamos encontrando mais amor, amando mais, crescendo no amor, humanizando e divinizando as relações inter-pessoais.



BIBLIOGRAFIA


- - Amor a Deus, a si mesmo e aos outros Ed. Santuário/Mundo Católico. Disponível em: <> Acessado em: 11 de Junho de 2006.

ALVES, R. quarto de badulaques (XXI). Artigo para o Correio Popular de Correio Popular, de 30/03/03. Disponível em: <> Acessado em 11 de Junho de 2006.

BERTELLI, G.A. Mística e Compaixão A Teologia do Seguimento de Jesus em Thomas Merton. Tese de Doutorado. PUC, Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: < nrocosis="19516&CdLinPrg="pt"> Acessado em: 5 de Junho de 2006.

COMTE-SPONVILLE, A. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999. Tradução de Eduardo Brandão. Disponível em: <> Acessado em 11 de Junho de 2006.

GREGÓRIO, S. B. Esperança. Disponível em : <> Acessado em 5 de Junho de 2006.
Conforme Gregório (2006): “A fé, mãe da esperança e da caridade, é filha do sentimento e da razão. Quer dizer, a fé, ao ser movida pelo livre-arbítrio, tem o suporte do sentimento e da razão, que lhe dão garantia de obter o esperado, desde que aja caritativamente.” Também, num site católico de catecismo encontra-se que: “A Fé é como uma raiz da qual nascem todas as demais virtudes. “
[2]João Paulo II (2000) disse: “Elas compõem um tríptico que tem o seu vértice na caridade, o ágape, cantado egregiamente por Paulo num hino da primeira Carta aos Coríntios. Ele é marcado pela seguinte declaração: "Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor" (13, 13).”